PREVISÍVEL E ORIGINAL; MANHÃS DE SETEMBRO, O ANDAR DE BAIXO COMO VOCÊ NUNCA VIU

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Manhãs de Setembro é protagonizada por Liniker no papel de Cassandra, uma travesti que trabalha como motogirl, em uma possante de duas rodas que vive pifando. Mora em um dos muitos muquifos da cidade, a exemplo de todos os protagonistas.

Obcecada por Vanusa, recria as interpretações da cantora como crooner em uma boate acompanhada pelo guitarrista Décio (Paulo Miklos). Tem um caso com Ivaldo (Thomas Aquino), um homem casado, cuja filha adolescente inicia um namoro lésbico. É amiga do seu guitarrista Décio e de seu namorado Aristides (Gero Camilo), um ex padre que ainda crê nos princípios cristãos, sobremaneira.

Cassandra vive sua vida “normal”, até que aparece Leide (Karine Teles), garota com a qual Cassandra (ainda chamado Clóvis) tivera uma relação sexual que gerou um filho, o pequeno Gersinho (Gustavo Coelho). Leide mora dentro de um carro velho com o filho e procura Cassandra em seu apartamento para apresentar-lhe o “pai”, e pedir para que cuide do menino enquanto procura empregos diversos — e encrencas. Cassandra se vê numa enrascada fora de seus planos iniciais.

Eis o núcleo básico de Manhãs de Setembro. Pressuposto primeiro: não há heróis, e os protagonismos e antagonismos se dão por natureza situacional. Pressuposto segundo, e definitivo: ninguém tem nada. Estamos de fato diante do “andar de baixo” da sociedade, retratado em roteiro e diálogos brilhantes escritos por Alice Marcone, Carla Meirelles, Marcelo Montenegro e Josefina Trotta.

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Para não dizer nada: Cassandra tem uma moto velha, Leide o carro podre onde mora, e Décio uma belíssima guitarra Gibson com a qual acompanha Cassandra na boate. Estáveis — aparentemente — apenas o casal Décio e Aristides. Ivaldo, em vida dupla, até que aparenta. Tudo o mais parece insustentável, aguardando explodir ou derreter, voltando à invisibilidade dos desvalidos da Pauliceia.

A trilha sonora é praticamente toda baseada no clássico álbum de 1973 de Vanusa. E na primeira cena do primeiro episódio já entra o petardo What to Do, de Papi e Alf Soares, sob cuja levada surgiu a lenda de a canção ter sido plagiada pelo Black Sabbath. As versões cantadas por Liniker/Cassandra na boate são comoventes, e dão um sentido de arte e criação coletiva à produção. O que não falta em Manhãs de Setembro é criatividade.

Nos afeiçoamos a cada um dos membros desta fauna paulistana, enfim “visível”,  em cinco episódios primeiros. Fica a enorme expectativa pela segunda temporada. Manhãs de Setembro cheira a divisão-de-águas no audiovisual brasileiro. Com o sobrevoo constante do “drone” de Vanusa, abençoando cada detalhe. A sorte está lançada.

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